Estudo inédito da Serasa revela ainda que, desde 1994 até setembro deste
ano, as vendas do comércio cresceram 102,4%
Um estudo da Serasa inédito sobre o desempenho do comércio de 1994 até
setembro deste ano revela que o crescimento concedido pelo comércio a seus
clientes aumentou 13,2% em termos reais de janeiro a setembro deste ano, em
relação ao mesmo período de 2003. É a maior expansão desde 2000, último ano do
crescimento econômico vigoroso.
A análise foi feita a partir dos balanços de cerca de 36 mil empresas de
pequeno, médio e grande portes, da indústria, do comércio e do setor de
serviços. Desse total, as empresas do comércio somam 14 mil, entre companhias
fechadas e de capital aberto.
O estudo aponta ainda que o crédito concedido por um número maior de
empresas, que inclui, além do comércio, companhias prestadoras de serviços e
indústrias, cresceu 2,8%, em termos reais, de janeiro a setembro deste ano,
ante o mesmo período de 2003.
Entre 1994 e setembro deste ano, o crédito das lojas concedido a clientes
triplicou e o faturamento dessas companhias dobrou (102,4%). Já a expansão das
vendas e do crédito das empresas em geral cresceu num ritmo bem menor, na faixa
de 70% nesse período, inferior ao registrado pela média das companhias
comerciais.
"O crédito é a mola do comércio. Isso explica por que o faturamento do
setor teve uma expansão bem superior à verificada nos demais", observa o
analista de Crédito da Serasa e responsável pelo estudo, Marcio Ferreira
Torres.
No mesmo período, por outro lado, o comércio expandiu 2,3 vezes mais os
créditos concedidos aos seus clientes. O estudo foi realizado com base nos
demonstrativos contábeis de quase 14.000 empresas comerciais, tanto as de
capital aberto como de capital fechado.
De acordo com o levantamento da Serasa, maior empresa do Brasil em
pesquisas, informações e análises econômico-financeiras para apoiar decisões de
crédito e negócios e referência mundial no segmento, o comércio conseguiu um
grande crescimento nos 3 primeiros anos do Plano Real, o que lhe permitiu
manter-se a frente dos demais setores.
Márcio Torres observa que a alavanca deste crescimento foi a expansão do
crédito concedidos a clientes que mais que dobrou no início do Plano Real. A
inserção de um grande número de pessoas no mercado consumidor e a estabilidade
da moeda aliados a larga utilização do cheque pré-datado foram os principais
motivos deste crescimento. A não utilização de procedimentos adequados para
vendas a prazo elevou a inadimplência a patamares nunca vistos, em 1995, o que
comprometeu os resultados das empresas.
Os lucros foram estáveis e contínuos ao longo destes 11 anos, porém devido a
alta competitividade do setor as margens de geração de caixa, medido pelo
Ebitda, e de lucro são mais apertadas que a do mercado em geral.
Quatro ciclos
No estudo elaborado pela Serasa foram destacados quatro ciclos ocorridos
entre 1994 e 2004. O primeiro ciclo começa em 1994 e vai até 1996, e dois
fatores importantes merecem destaque no início do Real. O primeiro foi a
estabilização monetária, que inseriu maior número de pessoas no mercado
consumidor, refletindo em aumento no faturamento das empresas. O outro foi o
processo de globalização, o que colocou as empresas frente ao mercado
competitivo, situação que se mostrou favorável àquelas que perceberam a
necessidade de implementar mudanças e promoveram investimentos em métodos e
processos destinados a elevar a eficiência operacional. Dessa forma, no início
do Plano Real, as vendas do comércio em geral foram favorecidas, devido a forte
expansão do consumo no país, crescimento esse que se manteve no período, apesar
do aumento de inadimplência em 1995 e das medidas adotadas pelo Governo para
conter o consumo em 1996.
A geração de caixa das empresas (Ebitda) neste período, apresentou queda,
causada pela redução da inflação e pelo aumento da concorrência que reduziu as
margens. Observando o lucro, nota-se um ápice em 1994, devido principalmente
aos aumentos nos preços, forte queda em 1995, em grande parte pela elevada
inadimplência e retorno do lucro em 1996, devido a redução das despesas
financeiras.
Entre 1997 e 1999, considerado aqui como o segundo ciclo, aconteceram
diversos fatores adversos, tais como as crises financeiras dos países do
sudeste asiático, a moratória da Rússia, o aumento das taxas de juros e a
mudança do regime cambial, com a adoção do câmbio flutuante, fatores que
causaram maior impacto, no comércio, em 1998, cuja variação no faturamento real
caiu de 7,5% em 1997 para –0,6% em 1998, ano em que o Governo lançou um pacote
de medidas, aumentando a cautela e reduzindo o consumo. Em função disso, o
faturamento acumulado deste ciclo cresceu menos, 10,6%, quando comparado ao
primeiro, que havia crescido 51,5%.
O ano 2000 foi marcado pela excelente dinâmica da economia brasileira
caracterizada pelo bom desempenho das exportações, continuidade das
expectativas positivas dos consumidores, melhora do nível de emprego, redução
das taxas de juros, queda da inadimplência e maior volume de crédito concedido,
fatores que garantiram o aumento dos negócios tanto para o comércio como para o
mercado em geral. A contrapartida é o aumento do endividamento em função do
novo patamar de negócios, sem comprometer a rentabilidade.
O terceiro ciclo (2001-2003) foi caracterizado pela menor taxa de
crescimento no faturamento, quando comparado aos outros ciclos, tendo evoluído
8,6%, em razão dos seguintes fatores: racionamento de energia elétrica, crise
financeira da Argentina, elevação da taxa de câmbio, desaceleração da economia
mundial, menor nível de atividade econômica, perda de poder aquisitivo da
população, alto índice de desemprego, restrições creditícias, incertezas
geradas pela eleição presidencial e altas taxas de juros. No que se refere aos
resultados, o melhor controle dos custos e despesas operacionais contribuiu
para elevação no nível da geração de caixa, medida pelo Ebitda, que se refletiu
numa elevação da rentabilidade.
O ano de 2004, o início do quarto ciclo, traz de volta a retomada do
crescimento, tanto no comercio, que cresceu 4,5%, como para o mercado como um
todo, que cresceu 5,5%. Os motivos do crescimento em 2004 são o incremento do
nível de emprego – e consequentemente da massa salarial – a expansão do crédito
e a ampliação dos prazos de pagamento, favorecendo principalmente a
comercialização de bens duráveis.
Conclusão
O estudo mostra que a expansão do faturamento real no setor do comércio, bem
acima do verificado nos demais setores, se deu pela maior concessão de crédito
a clientes desse setor em comparação aos demais. Nesse período, o comércio
expandiu o crédito a clientes, em termos reais, em cerca de 239%, enquanto que
o mercado como um todo expandiu em cerca de 67%. Tal expansão foi possível
devido à estabilidade monetária, a expansão da renda – que permitiu a inclusão
de novos consumidores no mercado – e a larga utilização do cheque
pré-datado.
Por outro lado, ao mesmo tempo em que as empresas comerciais assumiram maior
risco, aumentando o crédito a clientes, elas mantiveram os créditos bancários
em cerca de 30% do total de obrigações e a maior parte de suas obrigações foi
contraída junto a seus fornecedores, que nesse período podem ser entendidos
como verdadeiros parceiros. Uma outra forma de verificar essas mesma informação
é notar que ao longo dos anos a proporção média da conta fornecedores sobre
faturamento total foi de 10,1%, enquanto que a proporção média da conta
clientes sobre faturamento total foi de 9%. Assim sendo, as empresas comerciais
expandiram suas vendas a crédito na mesma proporção em que receberam crédito de
seus fornecedores.